Ricardo Cabús

Ricardo Cabús
O álcool nosso de cada dia
Há uma expressão em inglês que é muito interessante e que nesse momento veio-me à mente: ‘take it for granted’.
Uma tradução possível para o português seria ‘dar algo como certo por antecipação’.
O porquê dessa lembrança eu conto a seguir.
Estou tentando escrever um artigo em meu computador e o mouse não quer me obedecer.
Ratos em geral são desobedientes, é verdade.
Mas o eletrônico costuma ser submisso.
Quando acontece algo desabonador, como não levar o cursor ao devido lugar da tela, pode significar que há alguma sujeira na área.
Nesse caso, para voltar ao pleno domínio da situação basta limpá-lo.
Pois é, a obediência de um rato eletrônico, diferentemente do natural, pode estar diretamente relacionada ao seu asseio.
E se quisermos analisar de forma, digamos, endobiônica, não à limpeza externa, mas à interna.
Assim, decido verificar o seu teor de sujidade.
Coloco-o de ponta-cabeça e abro o compartimento que contém uma esfera, responsável pelo funcionamento da geringonça.
Tudo bem, dispositivo; a ira não gosta de substantivos neutros.
Então retiro a bolinha e imediatamente percebo que a chafurda é verdadeira e suficiente para deixar o rato para lá de insubordinado.
Ora, penso, nada que um cotonete com álcool não resolva.
Em poucos segundos os conectores estarão limpos e o rato voltará cegamente a seguir minhas ordens.
Simples! Simples? Simples, desde que houvesse álcool.
E é aí que vem a questão.
Um alagoano como eu – acostumado a viver arrodeado de cana-de-açúcar e ver álcool à venda em qualquer bodega da minha cidade – jamais poderia imaginar que não houvesse álcool à venda aqui na Inglaterra, berço da revolução industrial, classificada como ‘país de primeiro mundo’, e procure elogios, que você acha… Acha tudo, até macaxeira, menos álcool.
E como tudo tem seu motivo, apesar de nem sempre concordarmos com ele, a ausência de álcool nas prateleiras dos supermercados, farmácias e congêneres deve-se simplesmente a um fato: os ingleses bebê-lo-iam.
Soa estranho? A mesóclise ou o significado da frase?
Mas o pretexto é esse.
Concordar é outra história.
O índice de alcoolismo por aqui é bastante alto.
A maneira de combatê-lo é que é esquisita, além de não haver álcool comum para ser comprado por pessoas comuns, os bares geralmente só ficam abertos até as 11 da noite.
No entanto você pode começar a beber a partir das 11 da manhã, se assim quiser.
Eu hem?
Sim, mas voltando ao meu computador, faço o que vi um nativo fazer outro dia: uso minhas unhas para tirar o possível da sujeira existente na barriga do rato, dou um belo sopro, com direito a uma baforada de poeira, recoloco a pelota, tampo o bicho e bola pra frente que é jogo de campeonato.

#ricardocabus#prosa#literariamente 215

Mensagens Relacionadas

Amantes em Liberdade

Amantes em Liberdade
Sinto a liberdade no olhar dos amantes
Apaixonados e delirantes,
Sonhadores noturnos,
Em dias que se clareiam,
Em faces que se maquiam
Aos sons…

(…Continue Lendo…)

#apaixonados#literariamente#apaixonadas#prosa#poesias#cartas#gilbuena#poemas#amor#poesia

DEIXE-ME VOAR

DEIXE-ME VOAR
Passarinho, pense e me diga
Porque que escolhe casas
Se teu viver no mundo arriba
Todavia foram as asas?
Vejo-te voar pelos espaços
Em canto com seu c…

(…Continue Lendo…)

#prosa#literariamente#antoniomontes

00:31
Desta vez és uma prosa diferente. Gostaria de falar, que você se deixou apaixonar por alguém que adora escrever. E que, ainda bem, que nós somos ilimitados por dentro. Somos um “vazio’’ ch…

(…Continue Lendo…)

#prosa#literariamente#shandycrispim

Princesas e cowboys…

Princesas e cowboys…
Banco de prosa no canto da praça
Viola a entoar canções sertanejas
No céu, balões a subir
Dançam princesas cirandas de roda
Fogueira queimando, estre…

(…Continue Lendo…)

#literariamente#muciobruck#prosa

NÃO SOU POETA

NÃO SOU POETA
Quem me dera se eu fosse poeta
E dos amores saber contar
Falaria dum amor verdadeiro
Porque da verdade o amor não sabe calar.
Quem me dera prosar em versos<…

(…Continue Lendo…)

#prosa#gilbuena#literariamente

Fiapos de Memórias

Fiapos de Memórias
Se fui pobre não me lembro! Mas lembro de que já cai de caminhão de mudanças.
E isso é coisa de pobre. Ricos contratam empresas, delegam tarefas, colocam
os filhos…

(…Continue Lendo…)

#literariamente#prosa#leilamustafa