Ontem desenhei teu rosto nas paredes da minha casa
Ontem desenhei teu rosto nas paredes da minha casa.
Esbocei minuciosamente no espelho do meu quarto, teus traços e teu jeito de me fazer bem.
Tudo que vi ficou demais exato por ter sido criado por mim, que mal sei desenhar os meus próprios caminhos.
Usei meus sonhos como tintas coloridas e enchi de encanto a tela vazia da minha solidão.
Rabisquei teu sorriso olhando crianças brincando nas ruas de terra batida e fiquei feliz com o que vi.
Imaginei teus cabelos como se fossem cachos de acácias amarelas balançando ao vento de um outono de cores gris.
Teus braços são ramos que perfumam as minhas mãos frias e aflitas de tanto desejo.
Busquei o brilho dos teus olhos na luz de um dia de sol constante, que nunca chegamos a viver.
A cor da tua pele roubei de uma nuvem branca que passou ligeira pelo céu dos meus pensamentos e desapareceu no horizonte do tempo, onde tudo tem hora certa pra acabar.
Ah! Como você é linda e passageira! Mesmo assim, você me inspira a fazer até o que eu nem sei, inclusive amar com toda verdade! Tudo que desenhei em torno de mim ficou tão perfeito que eu jamais acreditei ser você ali, estampada nos meus braços, refletida nos meus gestos e se escondendo nas sombras do anoitecer.
Mas uma ventania inesperada soprou forte e borrou meus olhos que transbordavam as lágrimas da minha vontade.
Permutamos esperanças pelo medo escancarado de um futuro escrito sem nós.
Derramaram-se tintas nos meus planos perfeitos de ser feliz contigo.
Cores vivas se espalharam pelo chão empoeirado da minha tristeza e escorreram até o final de mim.
Naquela tela, antes branca e pura, agora pulsam velhas lembranças de tudo aquilo que jamais seremos outra vez.
Apesar de não ter tido a chance de amar com a medida e a urgência que eu tanto quis para nós dois, desenhei com inspiração e dor a tua vida no vazio da minha vida.
Delineei teus traços na escuridão dos meus dias com primor, exatidão e formas das quais jamais ouviremos falar em outra ventania.
A minha saudade é um retrato borrado pelas cores da desilusão.
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