Eu quero a verdade que s me dada
Eu quero a verdade que só me é dada através do seu
oposto, de sua inverdade.
E não agüento o cotidiano.
Deve ser por isso
que escrevo.
Minha vida é um único dia.
E é assim que o passado me é
presente e futuro.
Tudo numa só vertigem.
E a doçura é tanta que faz
insuportável cócega na alma.
Viver é mágico e inteiramente inexplicável.
Eu compreendo melhor a morte.
Ser cotidiano é um vício.
O que é que eu
sou? sou um pensamento.
Tenho em mim o sopro? tenho? mas quem é
esse que tem? quem é que fala por mim? tenho um corpo e um espírito?
eu sou um eu? "É exatamente isto, você é um eu", responde-me o mundo
terrivelmente.
E fico horrorizado.
Deus não deve ser pensado jamais senão
Ele foge ou eu fujo.
Deus deve ser ignorado e sentido.
Então Ele age.
Pergunto-
me: por que Deus pede tanto que seja amado por nós? resposta
possível: porque assim nós amamos a nós mesmos e em nos amando, nós
nos perdoamos.
E como precisamos de perdão.
Porque a própria vida já vem mesclada ao erro.
in UM SOPRO DE VIDA
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— Clarice Lispector.