Lerdeza
Lerdeza
A frase que o Everton mais ouvia da mãe era "levanta e vai buscar", geralmente seguida de um epíteto, como "seu preguiçoso" ou, pior, "lerdeza".
Porque o que o Everton mais fazia, atirado no sofá na frente da TV na sua posição de costume (que a mãe chamava de "estrapaxado"), era pedir para lhe trazerem coisas.
Uma Coca.
Uns salgadinhos…
- Levanta e vai buscar!
- Pô, mãe.
- Lerdeza!
O Everton já estava com quinze anos e era uma luta convencê-lo a sair do sofá e ir fazer o que os garotos de quinze anos fazem.
Correr.
Jogar bola.
Namorar.
Ou pelo menos ir buscar sua própria Coca.
- Esse menino um dia ainda vai se fundir com o sofá…
Everton não queria outra coisa.
Ser um homem-sofá.
Um estofado humano, alimentado sem precisar sair do lugar.
E sem tirar os olhos da TV.
E como era filho único, e insistente, sempre conseguia que lhe trouxessem o que pedia.
Quando não era a mãe, sob protestos ("Toma, lerdeza, mas é a última vez") era Marineide, a empregada de vinte e poucos anos cujo decote era a única coisa que fazia o Everton desviar os olhos da TV, e assim mesmo por poucos segundos.
***
Um dia, estrapaxado no sofá, o Everton se deu conta de que estava sozinho em casa.
A mãe tinha saído, o pai estava no trabalho, a Marineide de folga, e ele sem ninguém para lhe trazer uma Coca, uns chips de batata e uns Bis.
Levantar-se e ir buscar estava fora de questão.
Fechou os olhos e concentrou-se.
Concentrou-se com força.
Depois de alguns minutos, ouviu ruídos vindo da cozinha.
A geladeira abrindo e fechando.
Uma porta de armário abrindo e fechando.
Depois silêncio.
Quando abriu os olhos, a Coca, os chips e os Bis pairavam no ar, à sua frente.
Ele só precisou estender a mão.
No dia seguinte, Everton testou seu poder recém-descoberto na Marineide, que até hoje não sabe como a sua blusa desabotoou sozinha e seu soutien simplesmente voou longe daquele jeito, e logo na frente do menino.
Everton também acendeu a TV e mudou de canais sem precisar usar o controle remoto, e fez um vaso voar pela sala só com a força do seu pensamento.
Apagou a TV e ficou, atirado no sofá, refletindo sobre o que significava aquilo.
Ele era um fenômeno.
Tinha um poder único - fazia as coisas acontecerem apenas pela sua vontade.
Contaria aos pais, claro.
Eles poderiam ganhar dinheiro com seu poder.
O pai saberia como.
Ele se transformaria numa celebridade.
Cientistas do mundo inteiro o procurariam, sua capacidade extraordinária seria usada em benefício da humanidade.
No combate ao crime, por exemplo.
Nas comunicações.
Na medicina a distância.
***
E se aquilo fosse, de alguma forma, um poder religioso? Até onde a revelação do seu dom milagroso seria um sinal de que ele tinha uma missão a cumprir na Terra? Até onde aquilo o levaria? Fosse o que fosse, uma coisa era certa.
Ele teria que sair do sofá.
***
- Mãe.
- Ahn?
- Eu quero daquelas coisinhas de queijo.
E uma Coca.
- Levanta e vai buscar.
- Pô, mãe.
- Tá bem.
Mas esta é a última vez.
E já a caminho da cozinha:
- Lerdeza!
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