FAVELÁRIO NACIONAL
FAVELÁRIO NACIONAL
Quem sou eu para te cantar, favela,
Que cantas em mim e para ninguém
a noite inteira de sexta-feira
e a noite inteira de sábado
E nos desconheces, como igualmente não te conhecemos?
Sei apenas do teu mau cheiro:
Baixou em mim na viração,
direto, rápido, telegrama nasal
anunciando morte… melhor, tua vida.
…
Aqui só vive gente, bicho nenhum
tem essa coragem.
…
Tenho medo.
Medo de ti, sem te conhecer,
Medo só de te sentir, encravada
Favela, erisipela, mal-do-monte
Na coxa flava do Rio de Janeiro.
Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver
nem de tua manha nem de teu olhar.
Medo de que sintas como sou culpado
e culpados somos de pouca ou nenhuma irmandade.
Custa ser irmão,
custa abandonar nossos privilégios
e traçar a planta
da justa igualdade.
Somos desiguais
e queremos ser
sempre desiguais.
E queremos ser
bonzinhos benévolos
comedidamente
sociologicamente
mui bem comportados.
Mas, favela, ciao,
que este nosso papo
está ficando tão desagradável.
vês que perdi o tom e a empáfia do começo?
…
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Mensagens Relacionadas
Escrever é o mesmo processo do ato de sonhar: vão-se formando imagens, cores, atos, e sobretudo uma atmosfera de sonho que parece uma cor e não uma palavra.
Escrever é o mesmo processo do ato de sonhar: vão-se formando imagens, cores, atos, e sobretudo uma atmosfera de sonho que parece uma cor e não uma palavra.
(extraído do livro em PDF: As Palavras)
Só depois de viver mais ou melhor
Só depois de viver mais ou melhor, conseguirei a desvalorização do humano, dizia-lhe Joana às vezes. Humano - eu. Humano - os homens individualmente separados. Esquecê-los porque com eles minhas relaç…
#escritores#famosos#claricelispector
Dentaduras duplas
Dentaduras duplas!
Inda não sou bem velho
para merecer-vos…
Sou apego pelo que vale a pena
“Sou apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer. Acho que devemos fazer coisa proibida senão sufocamos. Mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres. Tenho que…
#claricelispector#escritores#famososCada vez mais ela não sabia explicar
Cada vez mais ela não sabia explicar. Transfomara-se em simplicidade orgânica. E arrumara um jeito de achar nas coisas simples e honestas a graça de um pecado. Gostava de sentir o tempo passar. Embora…
#claricelispector#famosos#escritores
Quanto eu devia ter vivido presa para sentir-me
"Quanto eu devia ter vivido presa para sentir-me agora mais livre somente por não recear mais a falta de estética…"
#famosos#claricelispector#escritores