BREVE CARTA A UMA VELHINHA
BREVE CARTA A UMA VELHINHA…
Teu corpo, teu rosto e tuas mãos mirrados, enrugados, teus olhos tristes e cansados, são as montanhas, montes, rios e riachos do meu país de fados.
Essas peles coladas aos ossos alquebrados, nunca viram nem tiveram a macieza dos cremes de beleza ou jamais sentiram os batons coloridos que as gentes do mundo usam em vários tons garridos.
Apenas só o pó da terra madrasta que amanhavas, ao fim do dia estavam negros, negros, como alcatrão das estradas.
No teu tempo, porventura, levavas e calavas e choravas para dentro do teu corpo, que era burro de carga e tida como besta de prazeres animalescos.
Não se pronunciava ainda, sabes minha velinha, a tal violência doméstica, pois era crime para quem o denunciava e de vítima se passava a réu, e como tal, preferias ficar, como tantas outras, calada.
Viste e ainda vês nascer e morrer inúmeros entes queridos e demais conhecidos, agora quase impávida e serena, pois sentes que a vida quase já não vale a pena.
Deus conservou-te até agora, para ver se outros seguem o teu exemplo, pela vida fora.
Oxalá, minha velhinha, o consigas, para alegria dos teus e também minha.
Um beijo te dou, neste dia da amizade, mas antevejo que daqui por algum tempo, restará apenas a saudade.
(Breve texto de Carlos Vieira de Castro)
Em 02-02-2018
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