Carta aos tímidos
Carta aos tímidos
Como um tímido veterano, acho que já posso dar alguns conselhos às novas gerações de envergonhados, jovens que estão recém-descobrindo o martírio de ter de enfrentar este terror, os outros, e se lançando na grande aventura que é se impor, se fazer ouvir, ter amigos, namorar, procriar e, enfim, viver, quando o que preferia era ficar quieto em casa.
Ou, de preferência, no útero.
Para começar, algumas coisas que não funcionam.
Tentei todas e não deram certo.
Decorar frase, por exemplo.
Já fui com uma frase pronta para impressionar a menina e na hora saiu 'Teus marilus verdes são como dois olhos, lagoa'.
Também resista à tentação de assumir um ar superior e dar a impressão de que você não é tímido, é misterioso.
Eu sou do tempo em que a gente usava chaveiro com correntinha (além de tope e topete, tope de gravata enorme e topete duro de Gumex) e ficava girando a correntinha no dedo enquanto examinava as garotas na saída das matinês (eu sou do tempo das saídas de matinês).
Um dia deu certo, a garota veio falar comigo, ou ver de perto o que mantinha o topete em pé, foi atingida pela hélice da correntinha e saiu furiosa.
Melhor, porque eu não tinha nenhuma fala pronta que correspondesse à pose.
Evite, é claro, as manobras calhordas.
Como identificar alguém tão tímido quanto você no grupo e quando alguém, por sacanagem, lhe pedir um discurso, passar a palavra imediatamente para ele.
O mínimo que um tímido espera de outro é solidariedade.
E não há momento mais temido na vida de um tímido do que quando lhe passam a palavra.
Tente se convencer de que você não é o alvo de todos os olhares e de todas as expectativas de vexame quando entra em qualquer recinto.
No fundo, a timidez é uma forma extrema de vaidade, pois é a certeza de que, onde o tímido estiver, ele é o centro das atenções, o que torna quase inevitável que errará a cadeira e sentará no chão, ou no colo da anfitriã.
Convença-se: o mundo não está só esperando para ver qual é a próxima que você vai aprontar.
E mire-se no meu exemplo.
Depois que aposentei a correntinha e (suspiro) perdi o topete, namorei, procriei, fiz amigos, vivi e hoje até faço palestras, ou coisas bem parecidas.
Mesmo com o secreto e permanente desejo, é verdade, de estar quieto em casa.
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